Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

As Taras Da Lina

Geminiana de signo. Nascida à beira-mar e a viver nas montanhas. Gosto de viajar pelo mundo, pelos livros e pelo cinema. Licenciada em Comunicação. Dona de um pastor alemão. Convicta que a vida sabe sempre o que faz.

As Taras Da Lina

Geminiana de signo. Nascida à beira-mar e a viver nas montanhas. Gosto de viajar pelo mundo, pelos livros e pelo cinema. Licenciada em Comunicação. Dona de um pastor alemão. Convicta que a vida sabe sempre o que faz.

Qui | 13.12.18

A ti, que ainda pensas nele

RP
Hoje deixo-vos um artigo de Laura Almeida Azevedo.
Talvez porque o Natal se aproxima e lembramos mais quem partiu, fisicamente, mas também aqueles que ainda cá estão mas nos magoaram e partiram de nós. 
E sim, tem dias que ainda nos lembramos.
A vida segue, a correria do dia a dia ajuda mas há dias que nos lembramos.
Ou porque fizemos algo especial, ou porque vimos algo relacionado à pessoa ou apenas porque sim.
Não há nada de mal nisso.
Lembrarmos de alguém não significa que o queiramos de volta.
Também não significa que somos fracos, cada um leva o seu tempo para curar as feridas e está tudo bem.
Dá um tempo a ti para fechar o que ainda possa estar aberto.
E não te martirizes com isso.
 

A ti, que ainda pensas nele*

Já passou tanto tempo. Mas, todos os dias, lembras-te dele. É mais forte do que tu, não é? Ele pode já não estar presente. Ele pode ter escolhido a vida sem ti. Ele pode ter-te virado as costas. E virou, e escolheu, e já não está presente — pelo menos, fisicamente. Mas tu, todos os dias, lembras-te dele. Todos os dias: como se o tempo não tivesse apagado nada.

Às vezes, oiço-te. Já te ouvi tantas vezes nos últimos tempos. Somos íntimas uma da outra. Conhecemo-nos bem. A amizade é isso que nos dá: a sabedoria para percebermos o que o outro pretende dizer com as palavras que escolhe, com o silêncio que faz. Tu falas de tudo o que a vida te dá e, de repente, paras e ficas em silêncio. E eu deixo de ouvir as tuas palavras — essas, as faladas — e oiço as que não tens coragem de dizer em voz alta.

Se pudesses, se a tivesses — essa coragem —, eu sei o que dirias. Dirias que ainda pensas nele. Dirias que ainda sentes o mesmo. Dirias que ainda tens saudades, que elas te apertam, que te fazem chorar — mesmo que cada vez menos, mesmo que aos poucos, mesmo que quase de forma impercetível. Dirias que a vida te trouxe tantas mudanças, que as abraçaste — não dirias que não tiveste medo das mudanças, porque tiveste e eu assisti ao teu medo. Dirias que essas mudanças toldam os teus dias, que te dão uma nova alegria. E dirias a verdade, se dissesses qualquer uma destas coisas. Mas, no final, precisamente no final de tudo, se pudesses, se tivesses essa coragem, dirias também que, apesar de tudo, do tanto que a vida te dá, não te dá o que mais querias.

Não te dá o amor. Esse verdadeiro amor que dá vontade de dormir abraçado. Esse verdadeiro amor que dá vontade de sonhar em conjunto. Esse verdadeiro amor que parece chorar nos olhos: de comoção.

Já passou tanto tempo e tu, todos os dias, lembras-te dele. É mais forte do que tu. Não adianta que o evites. Não adianta que o escondas. Já deixaste de o tentar: evitar, esconder. Agora, tu já não escondes. Apenas preferes não o dizer em voz alta — eu sei. Porque sabes que as palavras, quando pronunciadas em voz alta, quando entoadas no silêncio de uma sala, aumentam ainda mais a saudade. E tornam tudo ainda mais intenso. Assombram.

Por isso, às vezes, como agora, eu oiço-te — como te tenho ouvido sempre — e fico-me apenas por aqui, a olhar para ti, deste lado. E quase nem preciso que me digas nada. Porque te conheço. Porque a amizade é isso que nos dá. E porque sei de cor as tuas palavras, mas, sobretudo, os silêncios e as pausas que deixas entre elas.