Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

As Taras Da Lina

Geminiana de signo. Nascida à beira-mar e a viver nas montanhas. Gosto de viajar pelo mundo, pelos livros e pelo cinema. Licenciada em Comunicação. Dona de um pastor alemão. Convicta que a vida sabe sempre o que faz.

As Taras Da Lina

Geminiana de signo. Nascida à beira-mar e a viver nas montanhas. Gosto de viajar pelo mundo, pelos livros e pelo cinema. Licenciada em Comunicação. Dona de um pastor alemão. Convicta que a vida sabe sempre o que faz.

Sex | 25.12.20

O Natal do Papá!

RP

"- Papá, conta-me. Como era o Natal quando eras pequenino como eu?
- Não era nada do que pensas. Vais achar que estou a mentir.
- Não vou nada, conta-me. Anda lá!
- Pronto está bem. Mas vais acreditar mesmo que te pareça impossível, está bem?
- Está bem, prometo!
- Ora, quando eu era da tua idade ansiava pelo Natal como tu o fazes agora. Andava sempre a contar os dias...
- Porque tinhas muitos presentes debaixo da árvore, não é?
- Não. Com sorte, tinha um.
- Só um? Não acredito!
- Então? O que é que te disse? Tens que acreditar.
- Tá bem. Mas só um?
- Sim. Sabes, a vida não era como agora. Tínhamos muitas dificuldades. Algo que, para ti, é impensável. Eu tinha um presente debaixo da árvore. E, enquanto fui dos mais novos, entretanto nasceram os teus tios e como eram mais pequenos passaram eles a ter os presentes.
- Hum, isso não é justo!
- Na altura, não me importava. Vi isso acontecer aos meus irmãos mais velhos e já sabia que era o que me esperava.
- Então se não tinhas presentes como é que podias gostar do Natal?
- Bem, pode-te soar estranho mas o Natal não são os presentes. Eu gostava do Natal porque... as pessoas eram diferentes. Eram mais humanas e bondosas. Como sabes a avó não era rica. E nós vivíamos com pouco. Chegando o Natal as pessoas davam-nos coisas para comermos.
- Tipo chocolates e doces? Que fixe!
- Não, tontinha. Davam-nos batatas e couves. Peixe era pedir muito, mas a avó lá conseguia sacrificar um pouco para, pelo menos, na ceia termos mais que batatas cozidas com couve.
- Então e o bolo rei? E as rabanadas, filhóses? O tronco de Natal? O Pão de Ló?
- Com sorte filhóses... Quando se conseguia arranjar a chila. E digo-te, nunca nenhumas me souberam tão bem como as que a tua avó fazia à lareira. Nem as deixávamos arrefecer...
- Hum... Então e o pinheiro? Era assim, bonito e grande, como o nosso?
- Não tínhamos pinheiro. Fazíamos um presépio, pequenino, mas a sagrada família não podia faltar na época. Íamos buscar musgo ao pinhal e enfeitávamos com algodão. Lembro-me dos presépios daquelas famílias mais ricas. Eram grandes e bonitos. Até uma banda de música tinham...
- Uma prenda, batatas com couves e, com sorte, filhóses. Não tinhas pinheiro, só um presépio pequeno... Oh papá, o teu Natal não era grande coisa...
- Aí é que te enganas. O meu Natal era espetacular. No fim do comer ficávamos todos à lareira a conversar enquanto fazíamos tempo para ir à missa.
- À missa? À noite?
- Sim, a missa do galo, que era à meia noite. E quando acabava fazíamos fila para irmos beijar o Menino Jesus, agradecendo as prendas.
- Então, mas as prendas são o Pai Natal que traz.
- Oh filha, isso é agora, no meu tempo era o Menino Jesus.
- Pronto, tá bem. Então? E lembras-te qual foi a prenda que mais gostaste de receber até hoje?
- A melhor prenda que tive recebi-a muitos anos depois e estou agora a falar com ela. Quanto às prendas da época não me lembro de nenhuma em especial. Mas lembro do teu avô a contar histórias. Da tua avó a fazer a comida nos potes ao lume. Da algazarra dos teus tios. Da alegria que havia no nosso riso. E no amor que transbordava pelos nossos olhos. Acho que talvez tivesse sido esse o meu melhor presente. O partilharmos aquela data todos juntos. O ainda estarmos cá todos. O Natal é isso. É aquele estado de espírito que trazemos dentro de nós quando temos quem amamos connosco.
- Eu cá acho que o Natal são aqueles presentes todos que ali tenho. E os doces que vou comer sem que a mãe me chateie que me faz mal aos dentes. E a roupa nova que vou vestir... Desculpa papá, mas o teu Natal era uma seca!
- Talvez te pareça agora... Mas um dia cresces. E percebes."

2 comentários

Comentar post